Era outono, as folhas adquiriam a
liberdade dos galhos para morrerem ao toque do chão. Essa é a vida de uma
pessoa. Quando se adquire a liberdade, tudo passa tão depressa que em pouco
tempo a morte já está batendo em sua porta. Eu assistia sentada o fluxo
constante dos carros. Ninguém olhava para mim e os que faziam por um instante,
se arrependiam e baixavam a cabeça em constrangimento. Eu não me importava, pois a mudança de um
minuto para outro trazia-me o branco do esquecimento.A cadeira de balanço
rangia enquanto em vai e vem eu embalava meu pensamento, antes eu poderia passar
o tempo lendo ou assistindo TV. Hoje, tento lembrar daquilo que fiz antes de me
balançar e olha! Eu havia me balançado anteriormente também.
Um piscar de olhos e pude rever
as casas, o barulho das crianças brincando e o som do farfalhar das folhas.
Tudo inaudível nos dias de hoje. Antigamente,
tudo era mais opaco, não havia o brilho de hoje em dia e as cores ofuscantes.
Naquela época as casas tinham o mesmo tom, amarelado. Todas feitas com amplos
cômodos e quartos para empregados. Uma boa casa tinha no mínimo dois lavabos, a
sala de estar era separada daquela destinada ao jantar e a cozinha não fazia
parte de nenhuma, pois era outro cômodo voltado especialmente para fora. Uma
tática perfeita para que os vizinhos soubessem quando você faria mais pães! Eu
era uma cozinheira de mão cheia, ou pelo menos acredito que era. Uma coisa da
qual me lembro bem, é que eu tinha uma cadeira como esta em que me sento hoje,
era terrivelmente dura, pior ainda do que essa aqui, contudo eu sabia que
naquele aniversário eu ganharia uma cadeira nova. Me foi prometido, minha amada
filha e neta me dariam uma cadeira novinha ou pelo menos um travesseiro para
aquecer meu bumbum.
Mas naquela manhã sonolenta de
outono, o tempo estava murcho e sem vida, mas o meu pão era dourado como o sol
tão aguardado. O leite fresco já estava exposto na mesa e o bolo de fubá enchia
a casa com seu aroma. Aguardava Lucy chegar com a mãe, fato este que jamais
ocorreu, pois ela não estaria acompanhada da mãe em meu aniversário, nem
naquele dia e nem mesmo depois daquilo. A campainha tocou e pensei no quanto
era levada a menina, me fazer ir até lá é o mesmo que me pedir para caminhar
uma quadra, pois a casa era tão imensa e vazia. Minha neta não estava sozinha,
de mãos dadas com um homem fardado que se aproximou com olhos cheios de luto. Lembro de ter perguntado o que havia
acontecido, mas as lágrimas e o berreiro da pobre menina me deixava surda do
ouvido que era, particularmente, razoável. Pedi que repetisse e ele assim o
fez, então entendi naquele exato momento o motivo de tantas lágrimas e da cor
negra estampada nos olhos do policial. Meu cunhado havia matado minha filha e
depois tirado a vida e agora Lucy se tornaria minha protegida. Protegida de uma
idosa?! Já pensou nisso? Eu pensei. Não naquele momento, mas todos os anos
depois em que tentei proteger e ensinar a jovem que havia se tornado
adolescente a após isso adulta. Quando achei que ela havia criado o mínimo de juízo,
me colocou aqui. Onde estou neste exato momento. Uma cadeira de balanço, indo e
vindo. Disse-me: "Eu voltarei vovó, com um presente, eu prometo". E
obviamente eu entendi o recado. Ela iria
me dar uma cadeira de balanço melhor que aquela e quando eu perguntava aos meus
parceiros de casa, eles diziam: "Meu filho também." ou algo parecido
com isso.
Não sei quanto tempo faz, mas
todas as manhãs eu sento em minha cadeira, e no vai e vêm vejo meninas se
aproximarem. Me pergunto quem são e se alguma delas me traz a cadeira
prometida, parece uma eternidade que aguardo e apesar disso no dia seguinte, é
o primeiro dia após a despedida. O outono havia passado e minha espera
finalmente teve fim. Tive minha cadeira
tão prometida e ela era branca, em um jardim branco, com minha filha vestida de
branco.
As folhas são como uma pessoa e
quando elas atingem o chão, elas morrem. É o ciclo de tudo. É o ciclo da natureza e infelizmente é o ciclo
da vida.
Escrito por: Francine Cândido (Francis)

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