terça-feira, 18 de agosto de 2015

Conto: Uma Vaga Lembrança.



Era outono, as folhas adquiriam a liberdade dos galhos para morrerem ao toque do chão. Essa é a vida de uma pessoa. Quando se adquire a liberdade, tudo passa tão depressa que em pouco tempo a morte já está batendo em sua porta. Eu assistia sentada o fluxo constante dos carros. Ninguém olhava para mim e os que faziam por um instante, se arrependiam e baixavam a cabeça em constrangimento.  Eu não me importava, pois a mudança de um minuto para outro trazia-me o branco do esquecimento.A cadeira de balanço rangia enquanto em vai e vem eu embalava meu pensamento, antes eu poderia passar o tempo lendo ou assistindo TV. Hoje, tento lembrar daquilo que fiz antes de me balançar e olha! Eu havia me balançado anteriormente também.
Um piscar de olhos e pude rever as casas, o barulho das crianças brincando e o som do farfalhar das folhas. Tudo inaudível nos dias de hoje.  Antigamente, tudo era mais opaco, não havia o brilho de hoje em dia e as cores ofuscantes. Naquela época as casas tinham o mesmo tom, amarelado. Todas feitas com amplos cômodos e quartos para empregados. Uma boa casa tinha no mínimo dois lavabos, a sala de estar era separada daquela destinada ao jantar e a cozinha não fazia parte de nenhuma, pois era outro cômodo voltado especialmente para fora. Uma tática perfeita para que os vizinhos soubessem quando você faria mais pães! Eu era uma cozinheira de mão cheia, ou pelo menos acredito que era. Uma coisa da qual me lembro bem, é que eu tinha uma cadeira como esta em que me sento hoje, era terrivelmente dura, pior ainda do que essa aqui, contudo eu sabia que naquele aniversário eu ganharia uma cadeira nova. Me foi prometido, minha amada filha e neta me dariam uma cadeira novinha ou pelo menos um travesseiro para aquecer meu bumbum.
Mas naquela manhã sonolenta de outono, o tempo estava murcho e sem vida, mas o meu pão era dourado como o sol tão aguardado. O leite fresco já estava exposto na mesa e o bolo de fubá enchia a casa com seu aroma. Aguardava Lucy chegar com a mãe, fato este que jamais ocorreu, pois ela não estaria acompanhada da mãe em meu aniversário, nem naquele dia e nem mesmo depois daquilo. A campainha tocou e pensei no quanto era levada a menina, me fazer ir até lá é o mesmo que me pedir para caminhar uma quadra, pois a casa era tão imensa e vazia. Minha neta não estava sozinha, de mãos dadas com um homem fardado que se aproximou com olhos cheios de luto.  Lembro de ter perguntado o que havia acontecido, mas as lágrimas e o berreiro da pobre menina me deixava surda do ouvido que era, particularmente, razoável. Pedi que repetisse e ele assim o fez, então entendi naquele exato momento o motivo de tantas lágrimas e da cor negra estampada nos olhos do policial. Meu cunhado havia matado minha filha e depois tirado a vida e agora Lucy se tornaria minha protegida. Protegida de uma idosa?! Já pensou nisso? Eu pensei. Não naquele momento, mas todos os anos depois em que tentei proteger e ensinar a jovem que havia se tornado adolescente a após isso adulta. Quando achei que ela havia criado o mínimo de juízo, me colocou aqui. Onde estou neste exato momento. Uma cadeira de balanço, indo e vindo. Disse-me: "Eu voltarei vovó, com um presente, eu prometo". E obviamente eu entendi o recado.  Ela iria me dar uma cadeira de balanço melhor que aquela e quando eu perguntava aos meus parceiros de casa, eles diziam: "Meu filho também." ou algo parecido com isso.
Não sei quanto tempo faz, mas todas as manhãs eu sento em minha cadeira, e no vai e vêm vejo meninas se aproximarem. Me pergunto quem são e se alguma delas me traz a cadeira prometida, parece uma eternidade que aguardo e apesar disso no dia seguinte, é o primeiro dia após a despedida. O outono havia passado e minha espera finalmente teve fim.  Tive minha cadeira tão prometida e ela era branca, em um jardim branco, com minha filha vestida de branco.

As folhas são como uma pessoa e quando elas atingem o chão, elas morrem. É o ciclo de tudo.  É o ciclo da natureza e infelizmente é o ciclo da vida.


Escrito por: Francine Cândido (Francis) 

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